Conversando com...

- Seja bem-vindo.

- Olá... nos encontramos novamente.

- Sim... é um modo de ver as coisas...

- É, tem razão... de outro modo, seguimos sempre o mesmo caminho. Portanto, não há reencontro.

- Exatamente. Pelo visto, você aprendeu muito desde nossa última conversa.

- Sim... é um modo de ver as coisas...

- Lógico, lógico... E então... por que voltaste?

- Não sei ao certo... na verdade, ando muito confuso – o que, convenhamos, não é novidade nenhuma...

- De fato. A vida é mesmo confusa, já que nós a fazemos assim.

- Então... num momento parece que tudo segue um caminho certo, tudo se encaixa, planos estão a ponto de serem feitos... e de repente, tudo vira do avesso, nada faz sentido, nada tem lógica; nada de planos, porque todos os que foram pensados já não têm mais razão de ser...

- Isso não é verdade... nem todos os teus planos ruíram, e você sabe disso. só aqueles que realmente não tinham razão de ser.

- É, isso agora está ficando claro... mas, mesmo assim, os planos que ainda fazem sentido não parecem possíveis.

- Hum... se fazem sentido, então são possíveis.

- Será? porque não consigo entender como eles acontecerão. Quer dizer, eu sei que passo dar pra que eles venham a acontecer, mas nem todo passo é possível, só com o meu caminhar.

- Entendo o teu ponto de vista. O problema é que nem tudo o que faz sentido pra você faz sentido para outras pessoas. Ao menos não na mesma medida. Lembra do que conversamos em nossos encontros anteriores, não?

- É, lembro, claro. Mas é um caminho difícil esse... muito difícil, e às vezes muito cansativo também.

- “E quem disse que seria fácil?” Você mesmo diz isso o tempo todo, não?

- Sim, digo sempre, mentalmente ou em voz alta, pra não esquecer que por mais que tudo pareça estar tranquilo, sempre haverão obstáculos, e preciso estar preparado para quando surgirem.

- “Na paz, prepara-te para a guerra¹”...

- Ok, ok!! Eu conheço minhas citações – e suas fontes – muito bem, e você sabe disso... Não estou reclamando, você sabe... só desabafando um pouco, já que não tenho com quem mais fazer isso.

- Eu sei... é complicado viver assim. Mas você não precisa, realmente. Mas precisa perder o medo de se abrir, de se expôr.

- Isso é complicado demais. Não o me abrir, ou me expôr, mas o que isso acarreta. Mesmo que alguém consiga sentir tanto quanto eu, não consegue acreditar naquilo que sente, e portanto também não consegue entender como eu me sinto.

- As pessoas costumam confundir aquilo que é sentido com aquilo que faz sentido... nem tudo que é sentido faz, realmente, sentido. Aliás, se fizer sentido, talvez não seja realmente sentido. Porque o sentido quem dá é a razão. Mas a razão, por si própria, não sente. E o sentimento, sendo algo exterior à razão, precisa ser por ela entendido, para poder ter algum sentido.

- É... consigo perceber isso com mais clareza hoje em dia, mas ainda assim, é difícil manter o foco no que se sente, e não analisar tudo, ou não tentar interferir... é realmente complicado.

- Se não pudesses dar conta disso, não estarias aqui, conversando comigo.

- E será que posso mesmo? Porque hoje em dia já não sei mais...

- Duvidar também faz parte do processo... querer sumir, mandar tudo pro alto, ou simplesmente parar de sentir... é importante se auto-questionar, se auto-avaliar constantemente, porque isso te impede de cometer o pior dos erros...

- ... acreditar que não há mais nada a aprender, a melhorar, a crescer, a corrigir.

- Perfeitamente. E te ajuda a saber quando a missão está completa, e é hora de partir.

- Partir... não me lembra disso, por favor... Já foram muitas partidas sem despedida, e retornos sem boas-vindas... e todas sem nem sair do lugar. E agora mais uma possibilidade de partida, e a jornada mal começou.

- Se é isso que te preocupa, acho que tens a resposta... como sempre.

- É... ter a resposta é minha sina... saber entendê-la – ou senti-la, dependendo do caso – é minha maldição. Ou bendição, sei lá...

- Nem uma coisa nem outra. As pessoas costumam atribuir a suas habilidades uma conotação boa ou ruim, e também creditar a fatores externos tudo aquilo que vêm delas, ou que vêm a elas. Isso porque preferem não aceitar o fato de que tudo aquilo que há pode ser equilibrado, e que os fatores que giram em torno de suas habilidades oscilam dependendo de como são afetados por elas.

- Neutralidade é algo visto como mito.

- É um conceito mítico, realmente. Equilíbrio e neutralidade não são a mesma coisa. Vamos deixar a neutralidade para outra conversa, porque o que nos interessa aqui é o equilíbrio. Equilibrar as coisas não significa ser bom pra afastar o que é ruim, ou vice-versa. Não é combater um lado através do outro.

- Sim, isso eu entendo. Aceitar que existe dualidade, e que o equilíbrio só é possível através da complementação de ambas as forças, é o caminho mais difícil.

- E se pra você é difícil, imagine para aqueles que estão começando a se dar conta disso.

- É, eu sei. O que eu posso fazer? O que eu posso dizer? Como posso ajudar, se não sei nem se consigo ajudar a mim mesmo...

- Sei que isso não é um pergunta pra mim. Você sabe as respostas, mesmo não a sabendo. A confiança é cega...

- ...O caminho também. Você sempre diz isso. Poder ver o caminho só depois de percorrido também é desgastante. Viver todos os tempos, todos os momentos, todas as vidas, tudo ao mesmo tempo, e não descuidar do aqui e agora, não desviar do rumo... mas nada desgasta mais do que me sentir sozinho.

- Mas sabes que não estás sozinho.

- Sim, eu sei. Mas ainda assim, me sinto sozinho. Mesmo quando não estou.

- Entendo. E essa pessoa, de quem não queres perguntar, também acredita que está sozinha, não?

- Não sei.

- Tudo tem sua razão de ser. Aquilo que pressentes também. Mesmo que, o que pressentes, não seja visto ou entendido. Mesmo que seja tudo um engano. Mesmo enganos têm sua razão de ser.

- Sei, te referes ao que passou. Sim, eu consigo ver a razão de tudo ter acontecido como aconteceu. Mas isso não diminui a minha apreensão com relação ao que pode acontecer – ou deixar de acontecer - no futuro.

- Ótimo. Apreensão é o que te deixa alerta, e que te permite não deixar passar as lições que precisas aprender, tanto com relação ao teu próprio caminho quanto ao caminho daqueles a quem proteges.

- Não acho tão ótimo me sentir assim... mas enfim... creio que, por hora, essa conversa fica por aqui.

- Sim, perfeitamente. Tudo a seu tempo...

- Obrigado por me ouvir.

- Quando quiser, sempre que precisar...


¹ TZU, Sun. A Arte da Guerra. Adapt. James Clavell. Trad. José Sanz. 24 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Um comentário:

SamanthaK disse...

oi, oi!!
vim retribuir a visita e pedir desculpas por não atualizar sempre o jornaleco... Acho que vc é meu mais frequente visitante!

sabe como é, né... nem sempre há inspiração e tem também o fator tempo...

Beijos!! :)