Olhos nos olhos

Se queres de mim a morte,
diga, mas não para si mesmo.
Olhe nos meus olhos, e diga,
apenas uma vez.

Te quero, mas não a ti;
quero a parte de mim
que nunca esteve em ti
e que tomes a parte de ti
que não mais se encontra em mim.


Diga, mas não para si mesmo,
olhe nos meus olhos e diga,
mas esteja pronto, e ciente.

Mais forte não é quem
tem coragem para perguntar;
mas, sim, aquele que não teme
encarar sincera resposta, de frente.

E prontamente receberás,
mais do olhar que das palavras,
resposta justa a sentenciar,

Nunca sequer cogitei o abandono
nem mesmo pretendi à distância ficar;
Mas o exílio a mim impuseste
e só restou, mais uma vez, respeitar.

Se queres, de ti, para ti,
aquilo que a mim nunca pertenceu,
mas que por lealdade,
tua, a ti mesmo,
foi confidenciado,
nada tenho a protestar;
me sinto não menos que honrado.

Amanhã, ao acordares,
nada haverá, nem sentirás falta.
Memórias, vestígios, suspeitas.
Nem um sonho, ou sentimento,
nem mesmo rancor ou revolta.

Se um dia duvidaste,
de mim enquanto existência,
terás, agora, provado
mesmo sem teres consciência

nada tens até que reconheças,
que nada vem sem que decidas na vida;
nada foi, para que te arrependas,
e não existe escolha perdida.

Olhe nos meus olhos, e diga,
mas não para si mesmo,
e esteja pronto e ciente.

E uma vez que digas, ciente,
e estejas pronto a olhar, e encarar de frente,
perceberás que bastava a coragem
e a força para ouvir a sentença, até que finda.


E o que foi ausente nunca mais será
e o que foi presente, não permanecerá.
Nem em sonhos,
sequer em lenda.